Coluna do Bem
Um espaço de reflexão, bondade e serenidade para olhar para a vida com mais esperança, equilíbrio e humanidade.

Sofia Silveira
Sofia Serena escreve sobre bondade, serenidade e as pequenas escolhas que tornam a vida mais leve. Na Coluna do Bem, partilha reflexões positivas sobre a vida, as relações humanas e a espiritualidade, sempre com um desejo simples: que quem lê termine o texto a sentir-se um pouco melhor.

Talvez alguém sonhe com a vida de que hoje nos queixamos
Há conversas que duram poucos minutos e, ainda assim, ficam connosco durante muito mais tempo.
Imagine um empregado de restaurante que, enquanto trabalha, reconhece num cliente a profissão que um dia desejou ter. Durante uma breve conversa, conta que sonhava trabalhar na área das tecnologias de informação, talvez chegar a uma posição de responsabilidade, mas que as circunstâncias da vida o foram afastando desse caminho. Hoje, está noutra profissão.
Poderia ter ficado apenas uma troca de palavras entre duas pessoas que provavelmente nunca se voltarão a encontrar.
Mas alguém lhe disse algo simples: ainda és jovem. Talvez o caminho não tenha desaparecido. Talvez apenas tenha ficado interrompido.
Há conhecimentos que podem ser adquiridos aos poucos. Há cursos, certificações, horas de estudo depois do trabalho. Não é fácil, naturalmente. Quem trabalha muitas horas sabe que chegar ao fim do dia e encontrar energia para estudar exige esforço. Há também contas para pagar, responsabilidades familiares e imprevistos que nenhum discurso motivacional consegue fazer desaparecer.
Mas uma vida não precisa de mudar toda numa segunda-feira de manhã.
Às vezes, começa com meia hora por dia.
Aquele jovem pareceu recuperar, por alguns instantes, uma possibilidade que talvez tivesse colocado numa gaveta.
E talvez seja essa uma das formas mais simples de esperança: alguém lembrar-nos de que ainda podemos tentar.
Mas aquela conversa permite outra reflexão, talvez menos evidente.
Enquanto uma pessoa olhava para determinada profissão como um sonho, outra poderia perfeitamente estar a viver essa mesma profissão preocupada com os problemas do trabalho, cansada das reuniões, frustrada com decisões da empresa ou a pensar no próximo passo da carreira.
É curioso como a mesma realidade pode parecer conquista para uns e insuficiente para outros.
Isto não significa que devamos deixar de querer crescer.
Ambição, quando não nos consome, pode ser saudável. Podemos desejar aprender mais, ganhar melhor, assumir novas responsabilidades, mudar de carreira ou construir uma vida diferente. Não existe ingratidão em querer avançar.
O problema talvez comece quando olhamos tanto para o próximo degrau que deixamos de reparar naquele onde já estamos.
Quase sempre existe alguma coisa à nossa frente que ainda não alcançámos.
Um cargo melhor.
Uma casa maior.
Mais dinheiro.
Mais reconhecimento.
Mais liberdade.
Uma vida aparentemente mais interessante.
E é muito fácil transformar o que ontem desejávamos naquilo de que hoje reclamamos.
Conseguimos o emprego e começamos a pensar na promoção. Compramos a casa e reparamos no que falta renovar. Alcançamos uma meta e, antes de a saborearmos, já estamos a desenhar a seguinte.
Talvez faça parte da natureza humana continuar a caminhar.
Mas caminhar não nos impede de olhar à volta.
Podemos desejar o horizonte e, ainda assim, reconhecer o chão que hoje nos sustenta.
Talvez haja alguém neste preciso momento a estudar à noite para um dia ter a oportunidade profissional que nós consideramos banal. Alguém a enviar currículos para entrar na empresa onde nós suspiramos quando toca o despertador. Alguém a sonhar com uma estabilidade que já se tornou tão habitual para nós que quase deixou de ser visível.
Reconhecer isso não serve para criar culpa.
Serve para recuperar perspectiva.
Também vale a pena recordar o outro lado daquela pequena conversa: nunca sabemos o peso que algumas palavras terão na vida de alguém.
Talvez aquele jovem estude. Talvez consiga a primeira certificação. Talvez entre na área. Talvez um dia se torne, afinal, o profissional que imaginou ser.
Ou talvez o caminho tome outra direção.
Não sabemos.
Mas houve alguém que, durante alguns minutos, não viu apenas um empregado a servir uma mesa. Viu uma pessoa com um sonho que ainda podia merecer uma oportunidade.
E talvez precisemos das duas coisas na vida.
De pessoas que nos lembrem que ainda podemos ir mais longe.
E de momentos que nos lembrem que já percorremos bastante caminho.
Continuar a olhar para a frente, sim.
Mas, de vez em quando, olhar também para onde estamos.
Podemos descobrir que aquilo que hoje nos parece apenas mais um dia comum já foi, em algum momento, um sonho nosso.
E talvez ainda seja o sonho de alguém.
Fiquem sempre bem
:)
