Coluna do Bem
Um espaço de reflexão, bondade e serenidade para olhar para a vida com mais esperança, equilíbrio e humanidade.

Sofia Silveira
Sofia Serena escreve sobre bondade, serenidade e as pequenas escolhas que tornam a vida mais leve. Na Coluna do Bem, partilha reflexões positivas sobre a vida, as relações humanas e a espiritualidade, sempre com um desejo simples: que quem lê termine o texto a sentir-se um pouco melhor.

E se hoje não fosse preciso fazer tudo depressa?
Há manhãs em que ainda nem acabámos o pequeno-almoço e já estamos atrasados para alguma coisa.
Atrasados para sair. Atrasados para responder. Atrasados para resolver. Atrasados até para pensar.
O telemóvel apita, alguém espera uma resposta, há uma tarefa por terminar e outra que já devia ter começado. Sem darmos por isso, entramos num ritmo em que tudo parece urgente. Até aquilo que talvez pudesse esperar.
A pressa tem uma característica curiosa: consegue transformar coisas pequenas em obstáculos.
O carro da frente demora dois segundos a arrancar e irritamo-nos. A pessoa à nossa frente na fila procura moedas na carteira e suspiramos. Alguém demora a encontrar as palavras numa conversa e quase sentimos vontade de completar a frase por ela.
Não é necessariamente falta de bondade. Muitas vezes, é apenas cansaço. É a cabeça demasiado cheia. É a sensação de que há sempre qualquer coisa a seguir.
Mas talvez valha a pena perguntar: para onde estamos sempre a correr?
Claro que existem horários, responsabilidades e dias em que não há grande margem para abrandar. A vida não se organiza apenas com boas intenções. Há filhos para levar à escola, trabalhos para entregar, consultas, transportes, contas e imprevistos.
A questão não é transformar todos os dias numa manhã tranquila de domingo.
É perceber se, no meio daquilo que realmente exige rapidez, não estamos também a acelerar aquilo que não precisava de ser apressado.
Uma refeição.
Uma conversa.
Um abraço.
Cinco minutos à janela.
O caminho entre o trabalho e casa.
A resposta que damos a alguém.
Há momentos que perdem alguma coisa quando tentamos despachá-los.
Talvez por isso tantas tradições de sabedoria tenham dado importância à atenção. No Budismo, por exemplo, a presença consciente é uma prática central: aprender a reparar no que está a acontecer enquanto está a acontecer. Não para fugir da vida, mas precisamente para estar mais inteiro dentro dela.
É uma ideia simples, embora nem sempre seja fácil de praticar.
Estar onde estamos.
Ouvir quando alguém fala.
Comer enquanto comemos.
Caminhar enquanto caminhamos.
Parece pouco. E, no entanto, quantas vezes o corpo está num lugar e a cabeça já está três acontecimentos à frente?
Talvez uma parte da serenidade não venha de termos menos coisas para fazer, mas de deixarmos de viver todas ao mesmo tempo dentro da cabeça.
Também nas relações humanas a pressa cobra o seu preço.
Há respostas que seriam diferentes se esperássemos alguns segundos. Há discussões que talvez não crescessem tanto se ninguém tivesse tanta urgência em vencer. Há pessoas que só conseguem dizer o que sentem quando percebem que não estão a ser apressadas.
Dar tempo a alguém pode ser uma forma muito discreta de bondade.
E dar tempo a nós próprios também.
Nem todos os dias serão calmos. Nem todas as agendas permitirão grandes pausas. Talvez nem seja esse o objetivo.
Mas pode haver pequenos lugares onde recuperar alguns minutos.
Deixar o telefone pousado enquanto alguém nos conta alguma coisa.
Não reclamar imediatamente perante um atraso.
Beber um café sem aproveitar esse instante para responder a três mensagens.
Olhar um pouco mais para o céu quando saímos de casa.
São gestos pequenos. Não resolvem problemas profundos nem eliminam as exigências da vida. Mas podem devolver-nos alguma coisa que a pressa vai levando sem fazer barulho: a sensação de que estivemos realmente presentes no nosso próprio dia.
Porque talvez uma vida preenchida não seja necessariamente uma vida vivida com pressa.
E talvez, no fim de hoje, não seja tão importante termos conseguido fazer tudo.
Talvez importe também termos reparado em alguma coisa pelo caminho.
Fiquem sempre bem
:)
